s3

Resenha “Sarjeta, Sereno e Solidão” – um jogo de Jorge Valpaços

Olá Pessoal

Agora que engatei nas resenhas, vou por este caminho entusiasmado, e mais ainda quando vejo que nossos trabalhos como desenvolvedores independentes podem  motivar, alterar e impulsionar uns ao outros.

Quando criei UED – Você é a Resistência juntamente com o Fabiano “Chikago” Saccol, e resolvi criar o Guia de Construção Lost Dice, que destrinchava as escolhas de design, mal sabia eu que receberia no futuro esse presente de Jorge Valpaços, do Lampião Studios. Não posso chamar Sarjeta, Sereno e Solidão de nada menos que um presente, uma visão totalmente ímpar e expandida (com um trabalho autoral fenomenal) da proposta de um sistema que promoveria a experiência de sobrevivência a partir de suas regras. Mas como não estamos aqui para falar das minhas criações, vamos ao S³ (apelido carinhoso com o qual Valpaços se refere ao Sarjeta, Sereno e Solidão)

Baixe agora o seu Sarjeta, Sereno e Solidão.

O Livro

Ao longo de suas mais de 80 páginas de material gratuito e disponibilizado em formato de PDF, Jorge Valpaços transforma, de forma quase taumatúrgica e por que não dizer, poética, as referências frias e tecnológicas do Lost Dice em pilares e impressões da dura vida de moradores de rua em grandes metrópoles. Na diagramação e texto talvez pesem os poucos deméritos a serem apontados no jogo. Por conta da criação de uma atmosfera lúgubre e pesada, o jogo se apresenta em fundo escuro e letras em contraste. Isso somado a uma escolha pouco ortodoxa de fonte, e o fato de ser lido em uma tela brilhante (afinal é um livro eletrônico) foi bastante desgastante para a leitura. Em alguns pontos, para ressaltar questões importantes, o autor utiliza uma linguagem um pouco mais técnica e em partes mais carregadas de mecânicas, falta uma diferenciação entre os exemplos e a descrição destas regras, o que pode espantar o leitor casual. Vencendo-se esses dois pequenos obstáculos, acredito que você terá em mãos uma das propostas de jogo mais intensa, e ao mesmo tempo intrigante, que já pude ter contato em jogos de contar histórias.

O Jogo

Apesar de utilizar como base a dinâmica estrutural do Lost Dice, Valpaços não está preso a ela e busca acrescentar elementos para ampliar a experiência de forma fascinante. O jogo abdica da figura central de narração para distribuí-la entre todos os participantes, através de uma sistemática de criação da Cidade onde se passará o jogo e suas adversidades.

Os participantes serão Cidadãos (que de certa forma agem contra os citadinos) e citadinos, os que vivem à margem da sociedade e buscarão sobreviver a suas adversidades. Através do estabelecimento de fatos e pilares sobre a cidade, e usando as mecânicas de consumo de recursos como impulsionadores da história, Valpaços propões uma distribuição de controle narrativo focada no consenso entre os participantes. O ajuste de intensidade dos desafios se dá pelo consenso dos jogadores e principalmente a coerência narrativa de suas criações e o resultado de seus testes.

Pode a princípio parecer uma abordagem um tanto “solta”, o que talvez desagrade jogadores mais tradicionais, mas a construção da narrativa em blocos, com estabelecimento de premissas e a proposta de engajamento para este controle narrativo, trazem uma harmonia sistêmica ao jogo. Como já tive muitas experiências com o Lost Dice, consigo observar, mesmo sem ter jogado S³, o impacto dos testes e escolhas no gerenciamento de recursos no fluxo da narrativa. Neste aspecto, S³ lembra mais um boardgame cooperativo do que um RPG, dada sua nítida opção (e talvez independência) de negligenciar a existência de um árbitro ou moderador. Tudo que move o jogo são as regras e a coerência da ficção.

 

A Importância

Eu poderia discorrer horas sobre a importância e a necessidade da existência de meios para o exercício de empatia com pessoas em situação de rua, mas Valpaços já demonstra, através de sua poesia e olhar lúdico sobre o Rio de Janeiro (que ilustra o livro a partir de fotos do autor) toda sensibilidade que você precisa para experienciar este processo.

Seja pela construção da cidade e sua apresentação como as notícias de quando a “Cidade Acorda”, seja através das lacunas dos citadinos, que promovem uma forma de absorção de uma realidade cruel que não é a sua, Sarjeta, Sereno e Solidão transporta seus participantes para uma realidade dura e cruel onde não há vitórias. Há apenas sobrevivência.

Vale destacar o esforço no texto para que os elementos não se tornassem estereotipados ou mesmo fossem ferramentas de reforço de preconceitos. Assim como Valpaços, eu recomendo que você não jogue se não estiver disposto a abrir o coração e encarar a realidade por novas lentes a partir das personas de seus citadinos e suas relações com o Abrigo e com a Cidade.

Se você é um entusiasta do game design, um profissional de saúde ou assistência social em busca de mecanismos de empatia, S³ é leitura obrigatória. Ou mesmo se você simplesmente for alguém com mente aberta, interessado em uma experiência significativa e única, este jogo é altamente recomendado.

Ao Jorge Valpaços só posso dizer, mais uma vez, muito obrigado.

Baixe agora o seu Sarjeta, Sereno e Solidão.

About the author: Julio Matos

Júlio é Game Designer, Professor e entusiasta da cena Independente. Foi criador do Botequim dos Jogos e trabalha para manter o Mamute de pé! Você encontra os jogos malucos do Júlio no ZK Studio

Leave a Reply

Your email address will not be published.