Releituras

Releituras – Os clássicos possuem uma mensagem relevante.

Olá pessoal

Inaugurando minha coluna aqui no Cyber Mamute, em toda sua glória como espaço coletivo e independente, pretendo criar uma série de artigos para concatenar o conhecimento que venho estudando ao longo dos anos no Game Design.

Estas observações são fruto de um entendimento pautado entre leituras e experimentações, entre os 2 anos que estive comandando um espaço exclusivo de jogos, uma tabuleiria, e o trabalho intenso em salas de aula de cursos de graduação e pós, inserindo conceitos de design de jogos em contextos acadêmicos.

Toda essa construção parte de uma visão renovada, desenvolvida em um recorte histórico de clássicos como Huizinga e Callois. Não pretendo ser acadêmico nestas proposições, mas pretendo demonstrar correlações entre os campos Sociológico, Filosófico, Semiótico e Eurístico(não se assuste com esse monte de nomes estranhos) e os fundamentos apresentados pelos clássicos teóricos do Game Design.

Esses pensamentos estão, e sempre estarão, abertos à crítica estruturada, pois foi da crítica e do embate que eles nasceram. Invistam tempo não só da leitura, como também da crítica a tudo que está posto nestas proposições. Esta tentativa também busca estruturar em forma de texto boa parte do discurso que levo para a sala de aula e palestras, e pelas quais sou muito cobrado. Que melhor lugar do que este gordo Mamute para registrar isso? :)

 

Jogo como Fato Social

Comumente nos apegamos na análise e entendimento dos jogos, principalmente a sua estrutura e forma concreta, como se pudéssemos descrever a bomba pelo peso, aparência e capacidade de explosão. Eu acredito que o ponto de partida para explicar este fenômeno, aproveitando a analogia do artefato “bomba”, é analisarmos o estrago potencial que ela é capaz de fazer. Não a toa, Huizinga delimita em suas proposições, um “Círculo Mágico” onde, creio, não estava ele querendo delimitar uma cena ou espaço onde o jogo se circunscreve, mas determinar seu alcance dentro da realidade posta. Este alcance determina a veracidade e potência da experiência de um jogo, demonstrando ser ele muito mais que a soma de seus componentes. Ou seja, independente do tipo de jogo ao qual se analise, virtual, analógico, social, etc., aquilo que realmente importa não está na conjuntura de suas regras, no grafo de seu manual, ou na beleza do componente, mas no fenômeno mecânico resultante da soma de todas estas variáveis.

Qual o alcance deste Círculo Mágico? Como um conjunto de regras é capaz de gerar um “Movimento”, que é fruto do impulso humano de seguir adiante na busca de uma verdade reconhecida ou da forma resultante de uma decisão sua?

Pareceu filosófico demais? Talvez, mas só quando abstraímos as mecânicas de seu plano material e a entendemos como fenômeno, entendemos como manipular os componentes, como ingredientes físicos para uma receita que não gera um prato físico, mas um sabor etéreo que pode ser degustado de diversas formas por aqueles que participam voluntariamente deste Círculo Mágico.

 

Um olhar sobre o Fenômeno

De posse deste novo olhar sobre o Círculo Mágico de Huizinga (que é a faísca de todas estas Releituras), muito mais “potencial” do que “limite”, teremos que recorrer a outro pensador, para que possamos entender a arquitetura do fenômeno, um alemão chamado Edmund Husserl. Reconhecido por seus pensamentos sobre a fenomenologia, uma das filosofias mais complexas e de difícil evidência exemplar, Husserl nos dá pistas para elaborar uma arquitetura do fenômeno e a relação humana com ele. Em sua crítica a ideia da ciência, percebo uma nítida relação cíclica do fenômeno.

Deste ciclo, que acontece a todo o tempo, a cada milissegundo de existência de cada indivíduo, nasce uma pista de como nós, game designers, podemos interferir no entendimento de uma singularidade, a ponto de formatar uma mecânica que se projeta sobre este ciclo. Lanço abaixo a imagem metaforica deste ciclo e convido a todos a dissecação deste no próximo capítulo destas “Releituras”.

Um abraço e até a próxima! 😀

 

Fenomeno2

 

 

About the author: Julio Matos

Júlio é Game Designer, Professor e entusiasta da cena Independente. Foi criador do Botequim dos Jogos e trabalha para manter o Mamute de pé! Você encontra os jogos malucos do Júlio no ZK Studio

2 comments to “Releituras – Os clássicos possuem uma mensagem relevante.”

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  1. Eduardo Vancsek - outubro 19, 2016 at 12:53 pm Reply

    Incrível como eu tenho visto dentro do RPG isso ser cada vez mais real a cada dia, tendo a comunidade toda se preocupado com cada ponto desse quando apresenta o jogo à alguém ou quando planeja uma sessão e até nas suas “releituras” de aventuras que já foram narradas e jogadas. Particularmente, tem sido um grande desafio me preocupar com quais estímulos minha narrativa emite, ter atenção à percepção dos jogadores na hora do jogo e entender o que acontece nessa relação toda vendo suas atitudes, interpretações e até micro-expressões para tentar entender de certa forma, mesmo que em uma pequena miniatura de espaço-tempo que é dentro do jogo, quem é aquela pessoa e como aquela experiência está agindo nela como indivíduo. Já mudei formas de narrativa e interpretações, pesos de descrições por diversas vezes vendo incômodos às vezes… nunca sabemos quem é que está ali jogando e num jogo de interpretação de papéis, mesmo que com amigos de infância, nós nunca sabemos quem exatamente está ali jogando com a gente, dado o potencial de abertura que ser outro personagem nos dá.

    adorei seu post! quando eu li “Russerl” não tive como não voltar e ler novamente. Poderia ficar conversando sobre isso HOOOOORAS a fio…. obrigado Júlio!

    • Julio Matos - outubro 20, 2016 at 3:17 am Reply

      Que massa Eduardo. Bom saber que essa análise não atende só aos criadores de jogos, mas também a quem pratica seus jogos! 😀

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