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O Jogo, The Stanley Parable e jogando para perder

 

Estamos jogando o Jogo, e você perdeu! E está tudo bem.

O Jogo, aquele onde você sempre “perde” quando joga. Logo, ganha quando não joga. Mas será mesmo?

A experiência do O Jogo está fora dos seus limites. Ao jogar, você compartilha algo com os outros. Não quer “perder” sozinho, e assim ganha algo fora do jogo, uma conexão, uma desculpa para encher o saco. Perde-se no jogo e ganha-se algo fora dele.

 

War, it never changes

É comum encontrarmos pessoas que não sabem separar o jogo da realidade. Não consigo contar nos dedos os relacionamentos que presenciei serem ameaçados por uma mesa de War ou Uno. Costumamos rotular esses jogadores de “maus perdedores”, ou “super competitivos”. Estão tão engajados que perdem fora da mesa para ganhar dentro. Constantemente falhamos estes jogadores.

Lidamos com derrotas como se elas fossem, bem, derrotas. E derrotas são desagradáveis. Elas nos dizem “você é fraco, burro, azarado, inadequado, e vai ter que passar as próximas 4 horas da noite sozinho, espero que tenha trazido um bom livro”. Isso não só torna aquela traição dentro do jogo SIM um ataque ao bem estar da pessoa, como rouba a própria derrota do seu potencial significado dentro do jogo. Porque derrotas podem ser ruins, mas não costumam ser o fim. O que me leva ao Stanley Parable.

 

 

 

 

The end is never The end is

Stanley é um jogo onde o final mais “positivo” para o personagem é também o mais curto, óbvio e de menor significado. Recomendo, em 10 minutos você chega nele. Mas o jogo não acaba com o final, na verdade o jogo simplesmente não acaba. Isso leva o jogador a procurar alternativas e cometer “erros” interessantes. Diversas narrativas são possíveis, e o jogador escolhe qual é a “certa”, isso se não são todas ou nenhuma. É possível, por exemplo, ficar apenas abrindo e fechando portas e procurando “bugs” no cenário, e isso ter alguma importância. Eventualmente, o jogador escolhe parar o jogo. Essa escolha é interessante.

Constantemente é a única escolha que damos para o jogador. Ou você enfrenta o desafio, ou desiste frustrado do jogo. Se falhar, reinicie e tente de novo, sem problemas, sem consequências. Siga o(s) fluxo(s) ou feche o livro. E tudo bem, alguns jogos devem ser assim, e isso traz algum valor para o desafio proposto quando este foi escolhido. Desde que lembremos que os jogos não são livros.

 

Talvez isso seja um dos pontos que mais curto nos jogos narrativos, do velho papel, lápis e fala. Porque lá no topo da montanha prestes a enfrentar o Lich você percebe “Esse cara até que é legal, vou chamar ele para um churrasco”. E isso é bom, mas ainda é limitado. Porque, no fundo, você espera que o Lich vire seu parsa e seu personagem fique mais fodão. O jogo foi feito pensando apenas na vitória.

 

Mas se tem um segredo sobre as vitórias é que elas são construídas sobre muitas, muitas derrotas. E nem toda “derrota” é uma derrota. Porque quando não nos permitimos perder, perdemos algo. Perdemos, por exemplo, de participar de um movimento global onde todos são perdedores, ou de encontrar um museu secreto com as artes do jogo.  Perdemos sensibilidade e perdemos histórias incríveis. Mas, principalmente, perdemos o entendimento do que é uma vitória.

About the author: Guilherme DR

Gui DR, ou Guimba, surfista de sofá, por hora computero de formação e apaixonado por jogos. Comecei nos jogos narrativos para não ver mais meus amigos perdendo no Combate, e para fugir das aulas de educação física. Crio jogos experimentais que nem sempre consigo experimentar, brinco com coisas sérias e estudo para me manter incerto. Ainda não completei duas mãos cheias de lugares onde vivi, mas estou chegando lá.

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