Qual é o seu jogo secreto?

O Game Designer está morto, longa vida aos Game Designers

Jogos são a linguagem original da qual todas as outras derivam. Calma, eu vou explicar. Jogamos antes mesmo de falar e andar, e “brincadeiras” como “cadê a mamãe?” e “até onde eu consigo jogar esse brinquedo” nos ajudam a desenvolver as outras linguagens, como o idioma e o movimento.

Claro, estou esticando as definições de jogo, em especial aquela parte da “participação voluntária”. Mas nem tanto. A voluntariedade é parcialmente ilusória, já que a possibilidade de escolha está atrelada ao ímpeto da necessidade. É mais uma maneira de dizermos que não fomos forçados a algo. Precisamos socializar e nos exercitar e por isso aprendemos jogos que nos entreguem isso.

A linguagem lúdica não se limita apenas ao seu utilitarismo prático. Expandimos naturalmente essa linguagem, procurando nos expressar nos seus pontos fortes. E um dos seus pontos mais fortes é alterar a experiência do presente. “Mereço um chocolate quando terminar esta tarefa” traz motivação, “Não pise fora da laje” interrompe o tédio, “Me conte o seu segredo que eu conto o meu” traz experimentação. Os exemplos são inúmeros, o ponto é que todos sabemos criar jogos, a linguagem do Game Design é familiar.

Mesmo os idiomas, com suas regras arbitrárias, podem ser considerados jogos. E jogos, quando utilizados como idioma, ainda serão jogos. Em uma sociedade onde toda a comunicação seja feita através de movimentos de Xadrez (o que me parece uma excelente ideia para um jogo), falaríamos xadrerez e este ainda seria um jogo. Todo jogo tem um potencial expressivo enorme, desde que se possa adaptar e construir em cima da sua base. Em muito, este é um dos grandes atrativos do RPG.

D&D, Fallout, Dota. A força de uma linguagem não está apenas nas suas grandes obras. Se assim fosse, línguas escritas nunca seriam esquecidas e ainda falaríamos Latim nas rodas de bar. A força está na nota fiscal da padaria, no e-mail para o seu chefe e naquele artigo que você escreve de madrugada sem conseguir fugir de mais alguns exemplos.  Ou melhor, a força esta na partida de Truco que é diferente em cada região, no jogo de Taco que tem diversos nomes e nas infinitas variações que se pode ter ao chutar uma bola.

Por isso, mais importante que encontrarmos “gurus” é empoderarmos a multidão. Para que as infinitas experiências vividas possam expressar o seu “quê” sem palavras através da fruição e do engajamento. Todos nós sairemos maiores com isso. E a linguagem crescerá. Os Machados de Assises vão continuar fazendo seus excelentes jogos, mas os bons jogos, e os ruins, estarão acessíveis para todos inventarmos um novo jogo de bola ou uma virada diferente no dominó.

Incentivem os outros a fazerem jogos. Façam mais jogos. Joguem mais. Jogos importam. Mas importam na medida de quantas pessoas conseguem expressar-se através deles.

About the author: Guilherme DR

Gui DR, ou Guimba, surfista de sofá, por hora computero de formação e apaixonado por jogos. Comecei nos jogos narrativos para não ver mais meus amigos perdendo no Combate, e para fugir das aulas de educação física. Crio jogos experimentais que nem sempre consigo experimentar, brinco com coisas sérias e estudo para me manter incerto. Ainda não completei duas mãos cheias de lugares onde vivi, mas estou chegando lá.

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