maxresdefault

Desafios da Localização

Sempre que penso em traduzir algo de RPG, lembro-me de uma cena que aconteceu comigo há anos, no Encontro Internacional de RPG, em longínquas terras paulistas, onde ainda hei de estar durante uma terça-feira qualquer para comer um Virado à Paulista. Nossa, como eu tenho vontade de comer essa parada!

viradopaulista

Olha isso e me fala que também não te deu vontade???

Voltando ao EIRPG, eu estava em uma roda de conversa a respeito de traduções de livros de D&D 3.5, com a ilustre presença do D3, que então trabalhava para a Devir. Como todo mundo que entendia um pouco de inglês na época, eu achava as traduções da Devir uma merda, e me recordo que em dado momento um sujeito questionou a tradução de uma classe de prestígio cujo nome infelizmente me escapa, mas acho que era o Divine Emissary.

É importante ressaltar que tem um monte desses Divinos no D&D, e sempre imagino ser uma galera que se produz demais, carrega na maquiagem, passa horas arrumando o cabelo, e está sempre brilhante e DI-VI-NA!

divino

Já viu algum herói mais DIVINO que esse?

A Devir traduziu Divine Emissary como Agente Divino, porque achavam que fazia mais sentido assim em nossa língua, considerando não apenas o nome, mas também a descrição da classe. Só que um tempo depois saiu um suplemento com a classe Divine Agent, e daí fudeu – tiveram que inventar outro nome.

Não dou certeza dessas traduções, mas fiquem comigo na ideia de que algo assim aconteceu! Eu estava no meio de um élan, e as lembranças são meio turvas… Enfim, aquela foi a primeira vez na qual eu pensei que talvez fosse mais importante dar algum sentido à tradução do que apenas considerar palavras de forma utilitária, e foi então o meu primeiro vislumbre do conceito de localização, anos antes de compreendê-lo.

Localizar é tentar traduzir o texto de forma a preservar seu conteúdo, mas ao mesmo tempo, adapta-lo à cultura local – e isso envolve muita coisa, como costumes, religião, expressões regionais, sistemas de medidas, moeda, etc. É uma tarefa bem ingrata, principalmente em um país do tamanho do Brasil, onde cada região tem a sua própria cultura (e até sua própria língua, dependendo de onde você for). Além disso, precisamos pensar nos grupos que terão acesso ao livro, como a de jogadores de RPG, na cultura desses grupos.

localizacao

Localização é tudo!

Quando vou traduzir um texto, penso muito nessa ideia de localização, no D3 justificando algumas traduções, e em Virado à Paulista. Eu acredito que o texto precisa fazer sentido, o mais universal possível, mas sem perder a voz interna do autor. Preciso estar confortável o suficiente com ele para explicar o motivo das escolhas que fiz, e ao mesmo tempo tentar me esquivar das pedradas que virão. Por fim, eu poderia fazer um Virado à Paulista na minha casa, não preciso ir a São Paulo em uma terça-feira, mas como é algo que já idealizei tanto, tenho certeza de que me decepcionarei quando comer, não importa o quão bom seja. A terça-feira em São Paulo é a desculpa perfeita para que o Virado continue ideal, porque acho que nunca estarei lá em uma. De forma análoga, acreditar em produzir o texto perfeito, que agradará a todos, é uma idealização que pode impedir o tradutor de seguir em frente.

Quanto ao efetivo processo de tradução, 99% de transpiração, mas aquele 1% é importante para o texto brilhar. Às vezes perco um bom tempo lendo os significados de uma palavra ou expressão, usando dicionários em sua língua original, tentando entender suas nuances e as situações nas quais ela é aplicável. Faço isso principalmente com os termos de regras muito usados durante uma partida (como atributos e perícias), pois eles estão entre os itens que definem a experiência de jogo. Quando acredito que realmente entendi o que o autor quis dizer, coloco a mão na massa buscando sinônimos e adaptações.

Tento encontrar expressões similares em meios de comunicação de massa, devido à sua exposição, principalmente filmes e seriados, por exemplo. Mesmo não concordando com algumas de suas traduções, a exposição dos termos que eles usam acaba gerando maior reconhecimento e compreensão. Tento também entender o contexto dos jogadores de RPG e as mídias mais fortes entre eles, como revistas (saudades, Dragão Brasil!), páginas, blogs e vídeos. Acho legal também buscar as traduções de livros já lançados em português, e tento me alinhar a elas. Enfim, trabalho com muitas referências para tentar produzir um texto compreensível para o grupo que irá consumi-lo.

ChiefWiggumE vou confessar que eu adoro expressões gringas mal traduzidas que acabam virando cultura pop por aqui, tipo “Mexa esse seu traseiro gordo!!!”

Vou dar como exemplo de localização uma expressão vinda da minha tradução mais querida: Dungeon World. No Dungeon World, há um movimento chamado Hack & Slash. Hack & Slash, em um resumo preguiçoso, é um termo usado pelos jogadores de RPG para falarem de uma determinada maneira de jogar, mais voltada para a matança de monstros malignos e posterior coleta de seu tesouro, normalmente dentro de masmorras cheias de armadilhas e pessoas usando couro de forma (geralmente) não sexual. Uma tradução mais literal do termo seria algo como rasgar e cortar, e ele é utilizado porque é uma alusão às lutas ferozes que acontecem nas partidas de RPG do estilo.

No Brasil, esse termo virou Matar & Pilhar, afinal, o estilo de jogo não é só combater, mas também adquirir tesouros e itens mágicos para deixarem os personagens mais poderosos. Ele foi bem difundido em meio aos rolistas brasileiros em publicações, Internet, etc. No Dungeon World, Hack & Slash é o movimento de atacar e causar danos. Não tem vinculação com pilhagem de tesouros enquanto regra. Eis o dilema: fazer uma expressão que significa entrar em combate (eu sempre penso em botar pra quebrar, coisa de quem viu muito desenho antigo, diria), ou uma que remeta à cultura de jogo? Optei pela segunda, afinal, a cultura do RPG já havia absorvido este termo, e queria prestar a ele uma homenagem.

tesouro

Vamos tesouro! Não se misture com essa gentalha!

 Enfim, o que eu quero dizer é que traduzir é um trabalho um pouco maior do que simplesmente encontrar as palavras mais eficientes para representar cada conceito, e que há um pouco de arte e empatia envolvida no processo de tentar entregar um texto que deixaria o autor satisfeito. E que quando você estiver em São Paulo em uma terça-feira, já sabe o que deve ser feito.

About the author: Tiago Marinho

Estou presente há alguns anos nessa onda, escrevendo livros, artigos para revistas e sites, traduzindo todo tipo de texto e dando palpites mal educados. Participei do antigo coletivo de escritores O Círculo e fui um dos fundadores da Secular Games. Sou cheio de projetos inacabados e vontade de fazer pixel art. Adoro jogos e como suas regras definem seus mundos, já que acho o mundo de verdade caótico demais para que eu consiga entende-lo.

Leave a Reply

Your email address will not be published.