Avaliações – viÆgóica de Caue Reigota, Francisco Alves e Tadeu Rodrigues

Larp onde a tripulação de uma nave, numa missão de natureza e local variáveis (Galáxia), teve suas memórias embaralhadas. Todos lembram de tudo anterior a viagem, impossibilitando definir quem é quem (Identidade). As memórias são acessadas a partir das emoções dos jogadores (Os limites são tênues).

Avaliações da Fase 3

Carta de amor  – Cecília Reis

Querido ViÆgóica,

De todos os documentos que passaram pelos meus olhos nesse concurso, poucos estavam tão coerentes, coesos e bem escritos quanto você. Foi uma ótima leitura que me deixou instigada e contente com as mecânicas encontradas.

Logo de cara, a geração aleatória de história e personagens usando fatos da vida dos jogadores foi uma surpresa que me deixou curiosíssima, garantindo que cada jogo seria diferente do anterior, gerando um mistério que conversa tanto com o universo narrativo quanto com o pessoal.

A mecânica das descobertas de fatos baseados em emoções dos jogadores foi a que eu achei mais criativa e inovadora! Garante não só uma maneira de todos perceberem o que está acontecendo dentro e fora do jogo, mas também conversa com a sensação real de emoções como gatilhos de memórias.

Quero compartilhar que tenho uma certa apreensão com propostas de live actions. Muitas parecem pretensiosas sem oferecer uma experiência que realmente seja divertida ou interessante. A aleatoriedade e o trabalho emocional de ViÆgóica realmente me deixou encantada e curiosa para jogar, além de discussões interessantes sobre o que sentimos e como sentimos.

Minha única crítica seria que eu senti falta de um roteiro de jogo. Pode ser que não faça falta, mas pode ser que alguns grupos de pessoas sintam falta de algo acontecendo na nave além do despertar dos tripulantes.

Dito isso, e com essa vontade de jogar, declaro você meu favorito.

Com amor,

Ceci

Carta de amor  – Livia von Sucro

Belo Horizonte, Outubro de 2018

Querido Jogo Favorito,

todas as cartas de amor são ridículas, e não seriam cartas de amor se assim não fossem. Correndo o risco de soar absolutamente ridícula – aliás, só por iniciar parafraseando Fernando Pessoa, já sei que cruzei ao menos a linha da seriedade – escrevo esta carta de amor para o jogo que mais me encantou no Concurso Faça Você Mesmo de 2018.

Foram mais de quarenta jogos, muitas semanas que passei envolvida no processo de criação de tanta gente tão diferente, tão criativa, tão legal. Talvez eu devesse falar em poliamor, por mais que meu compromisso com o jogo que escolhi seja maior…

Não sinta ciúmes, mas preciso demarcar que todos os jogos que tive o prazer de (re)avaliar nessa etapa final têm regras estimulantes e criativas, e abraçaram a ideia do concurso sem reservas. Todos estavam completos, prontos para serem testados, e alinhavaram os temas e metas de design de forma inteligente e lúdica às experiências que propuseram entregar. Portanto, ao apontar um único jogo para ser meu escolhido, não manifesto desgosto para com os demais: apenas reconheço aquilo que meu coração deseja, e que a subjetividade é inerente a qualquer concurso artístico.

Por favor, não ria, meu Jogo Favorito. Já admiti o mergulho no ridículo logo de saída; portanto, como a bachelorette de um reality show de namoro, sinto-me no dever de falar um pouco de cada um dos pretendentes por ora preteridos:

“O Alvo” é um belo mini-jogo sobre o envenenamento psíquico de meninos, levando à formação de masculinidades tóxicas. É sensível, instigante e parece pronto para ser apresentado a audiências diversas, inclusive aquelas em idade escolar, como os próprios protagonistas do jogo. Mas as regras me parecem muito fixas, e eu gostaria de uma experiência menos rígida, que possibilitasse reflexões diversas.

“Matiz” é a inventiva releitura de um tradicional jogo de cartas, mas seu grande trunfo acaba por ser também aquilo que torna o jogo refém da aleatoriedade. No entanto, sua criatividade e a forma sagaz com que lida com escolhas são fantásticas.

“Lens – seu olhar pode mudar tudo” é um mini-jogo que incorpora o grande token da contemporaneidade, um celular com aplicativo de conversa. Mas o mundo e a dupla de personagens criadas através das lentes me soam muito etéreas, mais teste de personalidade do que jogo.

Mas você, meu caro, conseguiu me conquistar ao reunir o máximo de qualidades com o mínimo de defeitos.

Apaixonada, me arrisco a dizer que você é irretocável… meu jogo favorito no FVM 2018, aquele capaz de me emocionar e me fazer querer jogar instantaneamente, espalhar para todo mundo, ter numa bela versão física na estante, é você, viÆgóica! Você é um larp que necessita de pouquíssima preparação e conseguiu amarrar temas complexos a uma mecânica simples, perfeita para apresentar jogos de interpretação a iniciantes sem deixar de fascinar veteranas. Mesmo partindo da comuníssima premissa da viagem no espaço,
viÆgóica entrega a experiência de vivenciar a elaboração da identidade, respeitando alteridades diversas e fugindo de chavões. Tudo é concatenado de forma elegante e sofisticada, ainda que suficientemente concisa. As muitas referências dos autores transparecem elegantemente em você. Sei que seu futuro é brilhante.

Que nossa aventura juntos esteja apenas começando!

Beijos,

Carta de amor  – Juliana Truite

O que dizer desse jogo que mal conheço e já considero pacas?

Jogos são coisas maravilhosas. Ferramentas poderosas para reflexão, para o exercício da empatia e criatividade, para auto-melhoramento. Ser parte de uma comunidade que vê jogos com os mesmos olhos brilhantes e cheios de amor que eu é algo inspirador e, ao acompanhar o FVM desse ano aqui detrás do bastidores, eu sinto que vou ficar cega de tanto brilho nos olhos. Ver tantas pessoas, em especial tanta gente nova, se envolvendo e criando com o objetivo de nos unir, nos tornar mais solidários, mais abertos, mais conscientes, foi inspirador e gratificante.

Como designer de jogos eu entendo como é delicada a tarefa de gerar emoções e oferecer experiências específicas para nosso público. Cada pessoa tem uma formação diferente, valores e visões de mundo diferentes, prioridades e objetivos diferentes. Conectar elementos e criar uma mecânica para conduzir os jogadores através do caminho que o designer escolheu é um esforço hercúleo. Quando a emoção que se quer instigar é o amor então, a tarefa fica ainda mais difícil.

Sim, tudo isso para chegar ao ponto central dessa carta: meu amor pelo viÆgóica.

Em uma jornada longa, através não só das fases anteriores do FVM, mas também de todos os concursos, jogos, LABs, vídeos, projetos, play testes, etc e tal, que eu passei na vida eu construí um rank de jogos favoritos. Alguns foram escolhidos pelo cenário interessante, outros por mecânicas instigantes, tem jogos cujo mérito nem é do jogo em si mas de algum grupo ou campanha que eu joguei e me marcou. Ao longo de 13 anos envolvida com RPG esse rank é extenso e os parâmetros de avaliação pra lá de confusos. Entrar no hall da fama do meu coração não é fácil, mas você conseguiu, viÆgóica.

Na simplicidade dos recursos usados, na amarração elegante dos elementos pedidos pelo concurso, na mescla sutil e profunda de jogadores e personagens, você traçou um curso direto pro meu coração. Espero um dia poder ver você impresso, saindo da gráfica para a estante (e possivelmente) o coração de outras pessoas.

Boa viagem, meu amor!

Avaliações da Fase 2

Avaliação por Livia Von Sucro

  • O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta? Creio que a proposta de memórias e identidades embaralhadas, atrapalhadas pelos limites tênues que fazem confluir as mentes dos jogadores, consegue ser muito bem expressa nas mecânicas. Um trabalho preciso, coeso, e muito elegante. (3.0 de 3.0)
  • Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste? É um larp completo, pronto para ser jogado. (3.0 de 3.0)
  • O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos? Sim, de modo muito sofisticado, ainda que objetivo; e engajado sem ser doutrinário. (3.0 de 3.0)
    1. Se a autora optou por usar uma das metas alternativas de design, ela conseguiu executá-la satisfatoriamente? Sim, a meta foi incorporada com precisão, é quase o coração do larp.

O instigante larp dos autores não esconde suas influências, tampouco permite que elas roubem a cena. Formatado de modo simples e intuitivo, me parece um excelente jogo para iniciantes, sem desagradar veteranos. Os autores abraçaram a questão da diversidade de modo engenhoso, extrapolando suas próprias identidades e desaguando numa mecânica elegante e fluida de elaboração de personagens heterogêneos. Nada soa pretensioso ou fake, mas genuinamente interessado em abraçar a alteridade.

Em alguns momentos me lembrou A Penny For My Thoughts, pela reconstrução coletiva da memória em um ambiente confinado, resultando na (re)construção coletiva de identidades. Mas o jogo não é derivativo e tem identidade própria. Durante toda a leitura, facilitada pelo texto bem escrito e objetivo, senti vontade de colocar viÆgóica em prática.

Gostaria de vê-lo publicado, sem sombra de dúvidas, com um trabalho gráfico mais elaborado, que faça jus ao conteúdo.

Primeira para segunda fase: sem alterações

NOTA: 3.0


 

Avaliação por Alan Silva

Os game designers Cauê Reigota, Francisco Alves, Tadeu Rodrigues foram seguros e consistentes com o LARP Viaegoica. Já é tradição nos concursos de FVM a submissão de LARP’s e aqui, Viaegoica demonstra o motivo pelo qual chegou até a esta fase. É impressionante a qualidade técnica e segurança dos elementos do jogo são todos bem conectados e tornando o jogo completamente funcional. Este jogo trabalha com os ingredientes galáxia, identidade e a meta de design: as linhas são tênues.

A importância de Viaegoica na comunidade de jogos é bem importante por ser uma ótima porta de entrada para pessoas jogarem LARP. Os fatores externos estão no próprio participante do jogo, o que facilita bastante toda a preparação de jogo, neste jogo chamado de Briefing. O tema do jogo é confortável, porque viagem no espaço é um tema bem comum em histórias ficcionais, então facilita bastante a imaginação na execução da narrativa.

O que mais me chamou a atenção em Viaegoica é que cada mês (no mundo real) é jogado uma nova natureza e local é alterado. O que torna o jogo bem único e instiga as pessoas a organizarem seu tempo para jogar.

Apesar de ser um protótipo, caso estes designers desejam levar adiante Viaegoica eu sugiro que eles peçam apoio editorial para ilustrar a disposição das pilhas e pessoas no espaço de jogo. Desta forma facilitará ainda mais o entendimento do jogo.

Este jogo entregou o que prometeu. Parabéns a todos que fizeram este jogo acontecer.

NOTA: 3.0

Nota final do jogo viÆgóica de Caue Reigota, Francisco Alves e Tadeu Rodrigues – Fase 2: 3.0


 

Avaliações da Fase 1

Avaliação por Felipe Recka

1. O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta?

Sim, completamente. As escolha de desenvolver um LARP foi muito acertada e tornará toda da experiência do jogo ainda mais marcante. Os autores foram muito felizes em suas escolhas e as regras com certeza proporcionam questionamentos a respeito do tema identidade.

2. Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste?

Sim, o material apresentado funciona sozinho e possui todos os elementos para uma sessão de teste. Como sugestão os autores poderiam ter colocado possíveis cenários de jogo onde a resolução de um conflito depende necessariamente de uma memória.

3. O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos? Se a autora optou por usar uma das metas alternativas de design, ela conseguiu executá-la satisfatoriamente?

Temas: Galáxia e Identidade.
Meta de Design: Os limites são tênues

Sim, todos estão muito presentes e são bem desenvolvidos. O tema identidade foi explorado pelo conjunto de regras de maneira ímpar. A meta de design apesar de subjetiva ganha contornos bem definidos durante o jogo e acrescenta um nível de profundidade bastante interessante ao jogo. Parabéns aos autores fiquei muito feliz em ver esse desenvolvimento.

NOTA: 3


Avaliação por Stefan Plínio da Costa

1 – Sim, as regras são muito simples e são excelentes em transmitir a experiência proposta, elas facilitam e guiam bem a atuação do larp frente a proposta de interpretação e busca por identidade, aqui abordada de modo inteligente e criativo.

2 – O jogo é completo em suas regras e não demanda de materiais distintos para ser jogado, somado a sua simplicidade e proposta de atuação, o mesmo atua bem em uma partida teste que pode ser desenvolvida sem maiores dificuldades.

3 – É notável a preocupação dos desenvolvedores em abordar os temas propostos de modo imparcial e cuidadoso, os mesmos estão intrinsecamente ligados a mecânica e jogabilidade, sendo essa a maior qualidade desse jogo.

NOTA: 3


Avaliação por Gabriel Alonso

  • O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta?

O jogo transmite perfeitamente a experiência na qual se propõe. As regras funcionam de forma completa, proporcionando ao jogador a experiência de saber como exatamente os temas foram abordados. Seja na ambientação geral do jogo – onde cada jogador, de fato, assume os papeis apresentados no jogo a partir de quem são na vida real – ou na forma como as regras se aplicam no funcionamento e duração do jogo.

  • Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste?

O jogo funciona bem com os elementos propostos para uma sessão de testes. Algumas mecânicas do jogo me fizeram pensar que ele teria pouco valor de replay, já que se jogado algumas vezes com o mesmo grupo de pessoas, as informações de algumas pilhas seriam, teoricamente, parecidas. Outra regra que pode não funcionar na prática é a forma como as emoções definem a revelação de memórias exatamente. Já que em alguns casos ou jogando com determinado grupo de pessoas, algumas delas jamais aconteceriam, o que poderia impedir o fluxo natural do jogo de acontecer. No mais, muitas regras pareceram complexas de serem entendidas, já que muitos detalhes devem ser lembrados durante todo o curso do jogo, o que quebra um pouco a imersão, já que diversas vezes seria necessário consultar o manual do jogo.

  • O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos?

Incorpora de maneira substancial os temas apresentados, utilizando-os de forma a construir o cenário ao mesmo tempo que busca abranger características pessoais de cada participante usando-os ambos ao mesmo tempo. Além disso, o jogo cumpre de forma satisfatória e elegante a meta de design escolhida.

Ressalvas finais: Antes de iniciar é importante ressaltar alguns erros na escrita geral do jogo, como em “os ALPHA (que não possuem melhoramentos genéticos) e os ÔMEGA (que não possuem melhoramentos genéticos).” Nenhum deles dificulta o entendimento do jogo e portanto não serão levado sem consideração na avaliação final, mas seria interessante corrigi-los na fase “De volta ao laboratório”. Viaegoica é uma viagem interessante através de informações de cada jogador, usando-as de forma a construir uma narrativa válida que se adequa bem ao cenário e às mecânicas de jogos propostas. Regras um pouco complexas e parecidas entre si, e que dependem completamente de como cada jogador se comporta, além de poder quebrar a imersão caso os jogadores as esqueça ou não as cumpra, acabam prejudicando sua funcionalidade, mas sem atrapalhar de forma alguma o ponto diferencial do jogo, que é seu ponto forte.

NOTA: 2


Nota final do jogo viÆgóica de Caue Reigota, Francisco Alves e Tadeu Rodrigues: 2,66

About the author: Rafael Rocha

Rafael Rocha é sociólogo, um dos membros do coletivo/editora Secular, e um dos organizadores das primeiras edições do Laboratório de Jogos e Concurso Faça-Você-Mesmo de Criação de Jogos.

Leave a Reply

Your email address will not be published.