Avaliações – No Mesmo Barco de André Bogaz

Avaliação de Marcos Roberto Rodrigues

“Trata-se de um jogo que busca, por meio de narrativas reais, fortalecer laços entre duas pessoas e das pessoas consigo mesmas.”

O jogo é uma experiência de uma ou entre duas pessoas, que simula a vivência numa embarcação em direção a algum lugar que será alcançado ao final do jogo. O jogo utiliza cartas de baralhos convencionais. As pessoas se posicionam uma em frente à outra, dão uma das mãos e vão sacando cartas do baralho, cartas vermelhas solicita que um dos jogadores conte sobre um momento que a outra pessoa foi empática, caso saque uma carta preta conte um momento onde a outra pessoa foi forte. O jogo continua até que tenham pelo menos 4 cartas em frente a cada um dos participantes. No fim das contas é proposta uma reflexão sobre aquilo que foi dito no jogo, um momento onde você apresenta aspectos positivos sobre você (empatia e força) levando em consideração o que a pessoa à sua frente já havia comentado e também, um momento final onde as pessoas envolvidas falam um pouco mais sobre o futuro dessas “identidades”.

O jogo me surpreendeu de várias maneiras, ele parece bastante com dinâmicas propostos por psicólogos à casais com problemas em seus relacionamentos. Inusitado, muito interessante, vale a leitura e principalmente vale muito a pena que o autor dê seguimento ao projeto.

1 O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta?

Acredito que parcialmente, uma vez que existem poucas ferramentas que reforcem o fortalecimento dos laços entre as duas pessoas e também os tipos de narrativas que podem ser contadas. Já que o jogo conta com uma aleatoriedade que guia a contação de histórias, acredito que esse elemento poderia ser mais explorado. O autor apenas utiliza as cores do baralho (preto e vermelho) e fica a sensação que daria para fazer mais, contando outros tipos de histórias e para proporcionar o fortalecimento dos laços das pessoas envolvidas.

Um grande acerto acredito que seja no momento que o autor destaca a importância de se perguntar a outra pessoa se ela aceita jogar este jogo e a carta de Salvaguarda que possibilita que um assunto seja vetado caso a pessoa se sinta desconfortável, isso é muito massa.

Acredito que uma trilha sonora de som de água batendo no casco de navio ou “sons do mar” seja algo bem legal para este jogo.

2 Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste?

O jogo funciona! Ele tem início, meio e fim. Adoro jogos que começam e terminam, acho que foi um grande acerto até mesmo para garantir a experiência.

Minha crítica fica no final do jogo, na etapa final, eu realmente fiquei confuso com o ante penúltimo parágrafo das regras, que trata da criação da Identidade. Acredito que a ideia possa ser melhor apresentada para que as pessoas possam compreender melhor como proceder nesta etapa final, pois como é o fechamento da experiência, acho que é muito importante.

Como sugestão, um fluxograma pode ajudar às pessoas a compreenderem melhor as etapas do jogo e o que devem fazer em cada uma destas etapas.

Acredito que o texto possa ter uma sessão para leitura durante o jogo ou ser estruturado para ser lido enquanto o jogo é jogado, assim tudo que precisa ser explicado está no texto que vai sendo lido conforme o jogo vai acontecendo. Dessa forma, antes da outra pessoa dar o aceite, já tem-se um texto preparado para que a pessoa que fez o convite leia para a outra. Quando houver mudanças de etapas basta que alguma das pessoas leia a página seguinte para saber como deverão proceder. Acredito que isso iria garantir que as pessoas façam tudo que precise ser feito e não ocorram mal entendidos.

3 O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos?

Acredito que sim, porém cabe ressaltar alguns pontos. Veja bem, o jogo trata de empatia e fortaleza e tudo que se faz no jogo é tratar desses dois assuntos, isso é ótimo! O jogo trata de Identidade e tem um momento nas regras específico para isso. O problema que o jogo também se propõe fortalecer os laços das pessoas utilizando narrativas e apenas esses 3 temas sozinhos talvez não consigam atingir esse objetivo completamente. O jogo pode ficar um pouco repetitivo, uma vez que você só tem 2 assuntos (fortaleza e empatia) e sempre oferece feedbacks positivos à outra pessoa.

Não me leve a mal, eu adorei a ideia de uma conversa, quase uma DR (hehehe), para falar de experiência reais, e acredito que se ela for expandida através de outras situações que explorem mais as relações e os problemas (novas abordagens para esse temas), ou nova perspectivas ajude a atingir o objetivo do seu jogo. Imagine, utilizar um baralho de tarô (sem o significado esotérico) onde as pessoas ao sacarem cartas devam dar significado a carta ou consultar num pequeno texto do que se trata a contação de história. Se você tira um Mago você deve contar algum momento que a outra pessoa foi brilhante utilizando suas próprias mãos para fazer algum preparo na cozinha, ou algum trabalho manual, algo “mágico”. Se a outra tirou “O Enforcado” conte um momento onde a outra pessoa te tirou do sufoco ou de uma enrascada, acredito que dê mais variedade mais cor e consiga explorar muito mais os diversos aspectos das relações dos participantes e novas abordagens para os temas que você utilizou.

NOTA: 2,2


Avaliação por Gustavo Vazquez Ramos

É um jogo com méritos, porém limitado. Ele me pareceu mais uma espécie de terapia simples do que um jogo de RPG. Não há realmente um jogo, e as histórias são reais demais para se colocar como um “role playing”, como interpretação. Na verdade esse é o problema maior – é realista demais, e não há, como em jogos narrativos bem desenvolvidos, uma forma do jogador, através de personagens, entender mais a si mesmo. Esse espelho do RPG é muito rico e já foi explorado bastante e com sucesso por outros sistemas, e seria legal se fosse o caso aqui. Mas isso não ocorre: como está escrito, não é sobre personagens, mas sobre si mesmo. E se é assim, não é role playing, é uma forma não profissional de terapia.

Ele funciona com as regras poucas que possui, mas volto a repetir que não há jogo ou interpretação de papeis, mas apenas uma terapia não profissional.

Os temas fazem sentido, não houve metas estendidas.

NOTA: 1


Avaliação por Gabriel Alonso

  • O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta?

O jogo é feliz no que se propõe – as regras funcionam, apesar de forma estranha, para passar a sensação que o designer em questão tinha em mente. A forma como é apresentada é breve e sucinta, mas muitas delas parecem não ter sido abordas de forma diferente. Elas exigem que você esteja com alguém que realmente confia, mas mais do que isso, alguém que esteja disposta a participar de uma sessão de jogos como aquela. Todo o contato e os movimentos executados durante a partida, apesar de contribuírem para o desenvolvimento da partida, parecem de certa forma fora de lugares, como se tivessem sido criados apenas para entrarem dentro do tema ou do cenário proposto, mas que não tem real significado enquanto dentro do jogo. Mecânicas diferentes, mais confortáveis e com mais sentido poderiam ter sido aplicadas para representar a ambientação – ou talvez até mesmo mecânica nenhuma.

  • Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste?

O jogo é completo no que se propõe, apesar de que os elementos parecem um pouco destoantes de um jogo no geral. Em resumo, No mesmo barco é mais uma sessão de terapia ou de conversa do que um jogo propriamente dito, já que seus critérios de derrota ou vitória são mal definidos ou até mesmo inexistentes.

  • O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos?

Incorpora de forma substancial os temas que foram escolhidos.

Ressalvas finais: O jogo se propõe a ser uma viagem através da relação entre duas pessoas e cumpre bem esse papel. A falta de definições para uma sessão bem definida, bem como mecânicas que parecem não se encaixar bem e que parecem ter sido criadas para “tapar buraco” de mecânicas realmente estabelecidas e a não existência de uma condição de vitória ou derrota acabam tornando-o mais uma espécie de dinâmica de terapia do que um jogo propriamente dito – o que não é de forma nenhuma ruim.

NOTA: 1


Nota final do jogo No Mesmo Barco de André Bogaz: 1,4

About the author: Rafael Rocha

Rafael Rocha é sociólogo, um dos membros do coletivo/editora Secular, e um dos organizadores das primeiras edições do Laboratório de Jogos e Concurso Faça-Você-Mesmo de Criação de Jogos.

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