Avaliações – Meritrucocia de Rafael Carneiro Vasques 

Avaliação por Marcos Roberto Rodrigues

“É um jogo de truco no qual os jogadores jogam com número de cartas diferentes, proporcional aos privilégios sociais. Ao invés de pontos, os jogadores conquistam realizações individuais que devem ser narradas pelo jogador. Quando um jogador conquistar seis realizações o jogo acaba.”

O jogo se trata de uma partida de truco convencional, porém o que está em jogo não são “tentos” mas realizações individuais. Quem conseguir marcar 6 realizações primeiro vence o jogo. Partidas que não valem “truco” não valem conquistas pessoais, “trucar” faz o jogo valer 1 conquista e pedir “seis” faz com que o jogo esteja valendo 2 conquistas. Ao contrário do truco convencional, onde todos possuem 3 cartas, o número de cartas aumenta se algum jogador possuir alguma condições de privilégio, desta forma, um homem branco, branco que veio de uma família estruturada terá mais cartas do que uma mulher negra que não estudou em escola particular. A medida que as conquistas vão sendo realizadas a história será contada e o jogo avança, com a possibilidade de diminuição das diferenças sociais (número de cartas cada vez mais iguais entre os participantes).

Achei o jogo bastante interessante, é bem familiar utilizar a mecânica de truco e é uma super sacada utilizar a quantidade de cartas para representar a existência de privilégios entre os participantes, ou melhor, o esforço e sorte necessários às pessoas que sofrem com a desigualdade social para alcançarem conquistas suas coisas na vida. É muito legal essa premissa.

1 O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta?

Sim, o jogo tem como objetivo demonstrar que é mais fácil você projetar seu futuro quando você não é vítima de certas desigualdades sociais e acredito que ele consiga fazer isso através das suas mecânicas, uma vez que fica bem clara a desvantagem daqueles que passam por alguma desigualdade. Ao mesmo tempo ele consegue emular bem o esforço individual das pessoas em tentar reduzir essa desigualdade, sacrificando suas próprias conquistas a fim de equiparar melhor o jogo.

2 Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste?

Acredito que o jogo funcione, só tem que se avaliar o impacto de se decidir não marcar uma “realização pessoal” em prol de uma “luta contra a desigualdade”, como a única forma de vencer é marcando realizações pessoais, talvez haja uma estratégia dada de reduzir primeiro a desigualdade para depois vencer o jogo, talvez isso tenha que ser avaliado com mais carinho, talvez havendo outras condições de vitória para o jogo se tornar mais interessante e estratégico.

Acho que a parte narrativa do jogo, que é a parte onde se conta a história após uma conquista pessoal ou redução de desigualdade está bastante secundária. O jogo de truco acontece e aí quando há a vitória alguém conta uma história e isso está totalmente descolado da atividade de se jogar truco, sabe como?! o resultado pós-truco poderia ser uma piada, beber água ou ler um trecho de um livro, não tem haver com as decisões ou jogadas feitas no truco. Por exemplo, não existe uma situação prévia e aí conforme quem vence no “truco” aquela situação é deflagrada de uma forma ou de outra. Talvez fosse legal isso para dar “causa e efeito” no jogo.

Em alguns momentos o autor trata dos jogadores no masculino e em outros momentos no feminino, não sei se isso foi proposital mas vale a pena fazer uma revisão, assim como na nomenclatura “realizações pessoais” que na ficha, no fim do jogo, está escrito “conquistas individuais”, nada que atrapalhe mas achei importante avisar =D.

O jogo já está legal, mas como sugestão, talvez as conquistas pudessem ser hierarquizadas, assim um “seis” vale conquistas mais difíceis e um “truco” vale conquistas menos importantes. Outra ideia é que as pessoas que já possuem privilégios talvez possuam algumas conquistas como “casa própria”. Ele ainda teria que fazer mais 6 conquistas porém iremos perceber outra camada de desigualdade, fazendo com que os grupos se preocupem com conquistas diferentes, enquanto umas pessoas tem que se preocupar em conquistar “saneamento básico” outras já possuem “casa própria e saneamento” então estão preocupadas com “viagens de intercâmbio”. Ideias que podem ser lapidadas.

3 O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos?

O jogo trata em alguma medida dos temas identidade e privilégios, e ainda consegue avançar nas metas de design “Redução da desigualdade” e “Tipo isso, mas diferente”, porém eu tenho alguns pontos a ressaltar.

O tema identidade ficou bastante apagado e acaba até se fundindo a ideia de privilégios, por exemplo, ao caracterizar uma pessoa privilegiada você está falando também de sua identidade, a pessoa, então a ideia de “indivíduo” acaba desaparecendo dentro de privilégio ou se fundindo numa coisa só. Acaba que o tema indivíduo está presente mas está preso ao tema privilégio. Talvez valesse a pena trazer outro tema no jogo que pudesse acrescentar mais cor ao jogo, assim como aconteceu com as metas de design que brilham independentes. Falando nisso, as metas de design, “tipo isso, mas diferente” está claramente no centro da mecânica do jogo enquanto “redução da desigualdade” é sua alma. Dá para ver onde começa uma e termina a outra, apesar das duas se completarem. 

“Acho que você fez um bom trabalho, trabalhou muito bem nesse jogo, meus parabéns Rafael, vamos trocar uma ideia depois porque o jogo tá bem interessante!”

NOTA: 2,66


Avaliação por Guilherme Bufete Liberato

  • O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta?

A experiência é transmitida parcialmente. As regras são simples, e bem estruturadas, com fácil entendimento, porém a experiência narrativa sofre, uma vez que o jogo é uma grande partida de truco disfarçada de RPG, faltando momentos para a verdadeira essência do Role-Play: a interpretação.

  • Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste?

O jogo é bem completo, e apesar de necessitar de um baralho comum, é algo de fácil acesso.

  • O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos? 
    • Se a autora optou por usar uma das metas alternativas de design, ela conseguiu executá-la satisfatoriamente?

Os temas utilizados foram: Identidade e Privilégios. E foram utilizados as metas: “Tipo isso… mas diferente” e “Jogos para redução de desigualdades”. Os temas são muito explorados e aplicados na mecânica do jogo, e compõem um aspecto central no jogo em si. A primeira meta citada é muito bem utilizado através de um jogo de Truco, muito comum no nosso país, e muito conhecido, portanto, de faço acesso para a grande maioria. A segunda meta é um caso a parte: uma vez que o jogo fala muito bem sobre as minorias e as desigualdades sociais existentes em nossa sociedade, ele não funciona como um jogo PARA a redução das desigualdades, mas sim, abordando o tema, e dessa forma, não cumprindo totalmente com a meta proposta (que poderia muito bem não ter sido citada, uma vez que 2 temas e 1 meta já foram escolhidas).

NOTA: 1


Avaliação por Cezar Capacle

NOTA: 1


Nota final do jogo Meritrucocia de Rafael Carneiro Vasques: 1,55

 

 

 

About the author: Rafael Rocha

Rafael Rocha é sociólogo, um dos membros do coletivo/editora Secular, e um dos organizadores das primeiras edições do Laboratório de Jogos e Concurso Faça-Você-Mesmo de Criação de Jogos.

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