Avaliações – Lens: Seu olhar pode mudar tudo de Diego Barreto Azevedo

Este jogo se trata, primeiramente, de uma experimentação de ideias e mecânicas. Trata-se de um jogo em que fotos tiradas pelo celular devem ser interpretadas pelas jogadoras para produzir narrativas sobre conflitos internos vividos pela protagonista diante de um problema externo.

Avaliações da Fase 2

Avaliação por Alan Silva

O designer de jogo, Diego Azevedo, autor de Aventuras Ancestrais – um jogo narrativo no período paleolítico de Rio Grande onde ele mistura elementos de jogos de cartas com RPG de mesa – nos entrega um novo ponto de vista de jogos narrativos. Lens – seu olhar pode mudar tudo é o nome do documento que foi submetido para o concurso FVM2018 tratando dos temas: fortaleza e empatia. Porém, ele desafiou a si com a meta de design: transmissão.

A Fundação Getúlio Vargas já disponibilizou uma pesquisa que a população brasileira possui pelo menos 1 smarthphone. Tendo em vista este fato, é importante considerar que as pessoas estão integradas no ambiente digital. Em Lens, o autor decidiu explorar um recurso bem famoso: fotos. Selfie é o modelo mais popular de fotografia no mundo digital, um auto retrato demonstra muitas informações sobre como está as nossas condições emocionais, sociais, etc… Mas quando você se depara com alguém que confronta a sua essência, como lidar com isto?

Este jogo bebe bastante dos elementos de A Penny for my Thoughts, um jogo narrativo de pacientes que tentam recuperar suas memórias por um método revolucionário de uma clínica. O que este jogo faz de diferente é que ao invés de recuperar a memória, você tenta se libertar emocionalmente sobre o seu outro eu. E ele faz isso de forma brilhante com perguntas encorajadoras. Ao invés de agredir com perguntas ou gatilhos agressivos, o jogo permeia a desconstrução das suas próprias convicções.

De forma brilhante, Lens consegue temperar muito bem todos os elementos propostos. Tanto quanto a Fortaleza que representa a resistência e força de uma persona chamada “Fortaleza da Ilusão”, como também o uso de um aplicativo de mensagens capaz de enviar texto e foto (existem muitos que façam isso). Eu fiquei extremamente empolgado em jogá-lo. Porque é tudo muito diferente do que já foi visto no meio normativo.

Mecanicamente, o uso do número internacional de telefone usado como um valor de comparação foi bem esperto. Eu jamais imaginaria o impacto que isso causaria no jogo após fazer algumas simulações. E o que deixa bem mais alegre é a possibilidade real de estar preso na fortaleza pela opção da pessoa não querer se aprofundar tanto em sua essência.

O que me deixa bastante reflexivo é a escolha de um protagonismo feminino no jogo. Talvez seja necessário eu enfrentar a fortaleza das ilusões.

NOTA: 3.0


Avaliação por Seculares

  • O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no
    sentido de proporcionar a experiência proposta?

O jogo representa de forma excelente a experiência da jornada, de forma até intimista pela maneira como se desenrola pelo uso de imagens ilusórias e reais, que se misturam em uma fortaleza de ilusões que podem ou não ser quebradas pela protagonista, e cujos resultados podem ser contestados por algo que representa sua personalidade. O jogo funciona quase como um roleplay poem, e isso é muito bom.

  • Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os
    elementos para uma sessão de teste?

O jogo é bem completo, e possui todas as regras para ser jogado, com um começo, meio e fim muito bem definidos.

  • O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos?

A empatia é representada pela dualidade entre as informações passadas pela protagonista e pela fortaleza, onde se confundem o real e o ilusório, e durante as quais são discutidas sentimentos e pensamentos, além da mecânica de contestação por traços de personalidade. A fortaleza está representada pela barreira das ilusões, que talvez nem mesmo a protagonista deseja quebrar. A transmissão foi elaborada de forma brilhante, pela troca de imagens via celular entre as jogadoras.

NOTA: 3.0

Nota final do jogo Lens: Seu olhar pode mudar tudo de Diego Barreto Azevedo – Fase 2: 3.0


 

Avaliação por Rafael Canhête Lopes Filho

Comentário: Uma viagem visual bem íntima.

Critério 1: Capacidade de transmissão da experiência pelas regras: Nota 2

Aparentemente sim, mas seria bom experimentar antes de afirmar categoricamente. O manual poderia ser convertido em diagramas de formato reduzido para que a Fortaleza da Ilusão pudesse consultá-la enquanto sai para tirar as fotos da partida.

Critério 2: Completude do Jogo enviado: Nota 3

Completo! Em poucas palavras somadas a imagens que valem mais de 1000 palavras.

Critério 3: Incorporação dos temas escolhidos ou execução da meta alternativa de design: Nota 3

Transmissão: Bela execução por meio do envio de fotos pelo aplicativo de mensagens e pela comparação dos números telefônicos como mecânica, apesar disso reduzir a rejogabilidade entre a mesma dupla de pessoas, o que pode ser bom por incentivar a formação de novas duplas.

Empatia: Integrada por meio do compartilhamento de pontos de vista tanto literais quanto literários.

Fortaleza: Integrado pela metáfora do organismo como fortaleza-prisão-barreira do espírito, com a “administradora da experiência de jogo” chamada de Fortaleza da Ilusão praticamente no papel narrativo de antagonista-mentora a desafiar a protagonista a escapar da instância do Monomito equivalente à “Prisão Paradisíaca da Deusa-Mãe” (uma versão hedonista da “Barriga do Monstro”).

NOTA: 2,66


Avaliação por Jairo Borges

  • O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta?

De um modo bastante intimista e pessoal, sim. A própria leitura do jogo já transmite essa inquietude, convidando o jogador a querer experimentar este jogo.

  • Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste?

Sim. O jogo é completo, e apresentado de modo bastante reflexivo. Talvez, a leitura precise ser repraticada para entender o jogo,  de fato; mas isso não é culpa de uma falta de clareza, e sim da complexidade que o jogo oferece. A forma como ele está montado é linda.

  • O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos?

Sim, e muito bem. De forma muito envolvente, chamativa e instigante.

  • Se a autora optou por usar uma das metas alternativas de design, ela conseguiu executá-la satisfatoriamente?

Consegue, sim – e com méritos.

NOTA: 3


Avaliação por Caue Reigota, Francisco Alves e Tadeu Rodrigues

  • O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no
    sentido de proporcionar a experiência proposta?

Nós realmente não conseguimos entender como o jogo funciona a partir do manual. A redação é confusa. A proposta nos chama muito a atenção, mas não conseguimos entender como executar. A primeira coisa que nos parece coerente a fazer é transformar os textos em pequenas imagens, sob a forma de “cartões”, de maneira que fique mais viável para realizar ​upload no smartphone para que o jogo flua (afinal, nos parece mais coerente com a sofisticada ideia de um jogo que permite a mobilidade não possuir um “manual” textual convencional, num pdf A4). Mas, para além da apresentação gráfica, sugerimos a reformulação da redação para que o jogo se faça compreender, sobretudo levando em conta que a proposta do jogo é tão interessante.

  • Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste?

Nossa resposta é dúbia. Aparentemente, toda a ideia do autor está ali. Dessa maneira, o jogo funciona sozinho, com todos os elementos necessários. Porém, como apontamos no item anterior, com a redação confusa, consideramos impossível fazer uma sessão de teste a partir do manual.

  • O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos? Se a autora optou por usar uma das metas alternativas de design, ela conseguiu executá-la satisfatoriamente?

A meta alternativa ​Transmissão está ali, patente. É incontestável que é um jogo montado para o uso em smartphone, e chega a ser fácil imaginarmos “grupos de Whatsapp” com diversos jogos de Lens ocorrendo simultaneamente. A ​Fortaleza, conceitualmente, colocada em contraponto à Empatia, nos gerou certo incômodo (já que a fortaleza de uma pessoa não significa a oposição à empatia). Contudo,  game design da destruição das acomodações de uma fortaleza nos fez mudar de ideia, a ponto de considerarmos um dos pontos fortes do jogo. Já quanto a ​Empatia, descontando a presença do termo na redação, não sabemos sinceramente onde ela se encontra numa possível execução do jogo.

NOTA:​​ 1


Nota final do jogo Lens: Seu olhar pode mudar tudo de Diego Barreto Azevedo: 2,22

 

About the author: Rafael Rocha

Rafael Rocha é sociólogo, um dos membros do coletivo/editora Secular, e um dos organizadores das primeiras edições do Laboratório de Jogos e Concurso Faça-Você-Mesmo de Criação de Jogos.

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