Avaliações – Cthulhu 2020 por D. V. Lovecraft

Avaliação por Raul Fontoura

PRIMEIRA IMPRESSÃO

À primeira vista, Cthulhu 2020 chama atenção pela apresentação: diferente da maioria esmagadora dos outros jogos, é entregue em formato de website, inclusive permitindo a criação de um login. Saluto os desenvolvedores, dado que o cenário do jogo lida com a diferença do mito “cthulhiano” na era da tecnologia. Foi um diferencial bastante interessante.

PONTOS DE ANÁLISE

1. O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta?

Durante a apresentação na ala “Inspiração”, mas especialmente na ala “Sistema”, o desenvolvedor atenta-se a explicar para um público já versado em jogos, até mesmo a um grupo já versado em um ​lingo muito específico de certas comunidades de jogos de mesa.

Nessa última ala, o desenvolvedor apresenta três perspectivas sobre as próprias regras “simulacionista, gamista e narrativista”. Sem entrar em pormenores sobre esses termos, acredito que o desenvolvedor faz uma explicação bastante sincera para alguém que conhece o meio, e inclusive pede para que o grupo discuta qual dessas perspectivas vai guiar o jogo. A ideia de discutir com seus colegas de jogo para estabelecer um clima específico ganha um ​big thumbs up aqui, acho muito necessário que esse tipo de diálogo pré jogo exista. É quase como se houvessem “três modos de jogo”. Só fiquei um pouco desapontado de não haverem determinações claras e específicas de como usar cada um dos três (vide ponto 2).

Eu acredito que com base no sistema de sanidade, o jogo consiga representar aquilo que propõe. O sistema parece propor uma forma de narrar bastante específica em direção ao apogeu do cenário, lidando o tempo todo com seus temas.

2. Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste?

É uma questão complicada, mas eu diria que o jogo não funciona sozinho ainda. Eu pessoalmente não conheço o sistema do Call of Cthulhu original, e sem essa referência ficou bem difícil de aprender o jogo a partir do texto apresentado. Eu consegui compreender a intenção do desenvolvedor, explicitada na ala de “Inspiração” do jogo, mas ela não está posta aqui de forma a permitir o uso do texto do jogo apenas para jogar – ao menos não para alguém como eu, que não tem a referência do jogo principal no qual o sistema é baseado.

Não há informações suficientes no texto do jogo para que eu esteja apto a criar uma personagem com a certeza de que conheço todas as suas capacidades, nem a quantidade de pontos que eu tenho para distribuir em formato Gurps, como o jogo diz. Também não há descrição mais elaborada de como funciona um combate ou quantos pontos devem ser perdidos de que forma nas mecânica para Saúde e Sanidade.

Em suma, a explicação parece um pouco baseada demais no conhecimento de outro sistema.

3. O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos? Se a autora optou por usar uma das metas alternativas de design, ela conseguiu executá-la satisfatoriamente?

Os temas escolhidos pelo desenvolvedor foram ​Fortaleza​​ e ​Identidade​​. Além disso, ele também optou pela Meta de Design “Transmissão”:

Transmissão: Crie um jogo narrativo para ser jogado à distância. Isso pode ser feito usando redes sociais, messengers , plataformas de stream, ou mesmo meios analógicos, como cartas e bilhetes deixados em lugares.

Na questão da Meta de Design a tentativa foi clara: foi desenvolvido todo um sistema online  para que o jogo seja executado via internet. Infelizmente, minha perspectiva é de que o design do site é um pouco confuso para se utilizar no momento – o próprio desenvolvedor aponta que ele não está inteiramente pronto para uso. Dado o curto tempo de desenvolvimento para os jogos, entretanto, não vou levar isso como um fato negativo para o terceiro ponto (como ex-webdesigner, acho que seria bem injusto).

Quanto aos temas, Identidade foi deixada bem clara no texto: o jogo lida com a insanidade de suas personagens, e o cenário questiona o quanto dessa insanidade faz parte da identidade delas, o quanto delas some se toda a sua insanidade sumir. Com as regras de insanidade, isso acaba se tornando diretamente ligado às personagens; seus aspectos mudam na medida em que elas vencem os fantasmas de suas mentes.

A coisa da fortaleza ficou um pouco borrada, mas consigo ver o que se pretende: o desenvolvedor aplica aqui Fortaleza como um estado mental descrito pela doutora Huxley como a figura do ápice da humanidade, composta de consciências individuais que não tem qualquer consideração pela própria individualidade. Eu consigo ver essa Fortaleza como uma metáfora para um método de controle: “essa é uma consciência protegida pela Fortaleza, impenetrável, que obedecerá sem questionamentos uma autoridade que diz procurar o bem comum”.

SUGESTÕES PESSOAIS
Eu gostaria de ver este jogo com as regras completas delineadas, inclusive as de como a narradora deveria prosseguir. Gosto muito de como a progressão da narrativa se apresenta no sistema de insanidade, e gostaria de ver como ele se encaixa com o restante do jogo de forma mais detalhada.

Quanto ao site em si, eu vejo a intenção, mas talvez ele seja redundante. Como membro premium do Roll20 por apenas um mês, é possível programar uma ficha e uma sala customizadas diretamente para o jogo, disponibilizando para todos os outros usuários. Se vocês se aproximarem do Roll20 vendendo o jogo na plataforma (com sala e fichas já inclusas na compra pelos mestres), até podem incluir ilustração e regras completas sem qualquer esforço. Acredito que possa poupar vocês bastante tempo e problemas com servidores e bancos de dados. Além disso, ter um jogo seu sendo vendido na maior plataforma de rolagens do mundo deve ser legal, certo?

Um jogo com uma premissa interessante, cujas regras fora do eixo de Sanidade se apoiam muito sobre suas inspirações. Criado explicitamente para ser jogado online, com um pouco mais de tempo acredito ser promissor.

NOTA: 1


 

Avaliação por Jordan Florio de Oliveira

O jogo e parece interessante, mas ele falha, infelizmente em se transmitir adequadamente, já que todo o texto sobre o jogo está escrito em uma linguagem co0mplicada, prolixa e sem foco.

A ideia da mente e do uso da insanidade como ferramenta investigativa não é exatamente original, mas parece muito bem usada aqui, embora muito disso se perca pelo problema da linguagem.

O jogo, estruturalmente falando, parece muito bem pautado na teoria, usando uma metodologia de fusão de sistemas que eu não tenho certeza se funcionam na prática, mas parece bem amarrado de olhar por cima.

Uma reescrita completa no material do jogo, em formato mais simples e acessível se faz indispensável, e uma apresentação mais didática dos mitos de Lovercraft e de outros elementos usados na construção também se faz indispensável. Fica difícil avaliar se ele cumpriu os requisitos aos quais se atrelou porque a linguagem faz todo o material trabalhoso de se ler.

NOTA: 1,5


Avaliação por Caio Romero

  • O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta?

Vou mentir não. Assustei quando comecei a ver o Cthulhu 2020. O cenário, obviamente, me chamou a atenção pra caramba (ah, só o nome já atiça curiosidade), mas o foco nas mecânicas me intimidou. Não sei. Acho que esperava mais imersão. O texto disponibilizado para o concurso explica as regras e cita de onde bebeu ou alterou tais mecânicas: Call of Cthulhu, GURPS, Sistema D20, Fate… aí que chega num ponto em que as regras parecem sufocar o resto do jogo em si. Mas o problema vem quando chegamos na segunda pergunta, porque as regras, infelizmente, não atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta… isso porque a meta alternativa de design “Transmissão” foi selecionada e, apesar do jogo estar disponibilizado em um endereço próprio, online, Cthulhu 2020 não necessariamente é para ser jogado online. :/

  • Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste?

Infelizmente, o jogo não foi terminado a tempo e, nas palavras do autor: “o desenvolvimento continuará e acho que será possível avaliá-lo”. Ou seja, apesar de a ficha estar disponibilizada e as regras estarem parcialmente ali, acho difícil o Cthullhu 2020 funcionar sozinho como está no momento.

  • O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos? Se a autora optou por usar uma das metas alternativas de design, ela conseguiu executá-la satisfatoriamente?

Os temas escolhidos, Fortaleza e Identidade, se fazem presentes. Contudo, acredito que a
meta alternativa “Transmissão” não foi executada satisfatoriamente. Não digo isso pelo fato de o jogo não ter sido terminado, mas sim por não haver a necessidade de que ele seja jogado online. As mecânicas não estão atreladas à meta em questão.

O que mais me chama a atenção em Cthulhu 2020: a temática e a mecânica de insanidade, o lance dos Diagramas Psicanalíticos pode render algo bem legal.

Algo “negativo”?: a meta transmissão não rolou. Cthullhu 2020 é, aparentemente, um RPG normal, que pode ou não ser jogado online. Ou seja, a meta não se concretizou porque as mecânicas estão desvinculadas da proposta de “ser jogado à distância”.

NOTA: 1


Nota final do jogo Confinadx por Cthulhu 2020 por D. V. Lovecraft: 1,66

About the author: Rafael Rocha

Rafael Rocha é sociólogo, um dos membros do coletivo/editora Secular, e um dos organizadores das primeiras edições do Laboratório de Jogos e Concurso Faça-Você-Mesmo de Criação de Jogos.

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