Avaliações – 119 Dias Comigo por Janine Appel e Êowyn

Avaliação por Camilo Soares

A palavra ​consumo tem permeado, norteado e definido boa parte do que temos feito nessa última década: aprendemos a – e por vezes adoramos – consumir marcas, produtos, ideias e até pessoas. Às vezes, nós não pensamos, não nos afetamos, não incorporamos, não mudamos, apenas consumimos. Essa sensação de anestesia que você está sentindo é – [a]normal, mas – socialmente aceitável;

Se faz importante lembrar que nem toda obra é criada para te entreter, te deixar alegre ou meramente gastar seu tempo enquanto é consumida; Janine e Éowyn nos trazem 119 Dias Comigo – um jogo intimista inspirado pela experiência de internação psiquiátrica de sua idealizadora – uma obra que nos faz pensar e quebra expectativas: ao se consumir a mesma, será possível extrair apenas o que você levar;
Jogadoras e jogadores de 119 Dias Comigo devem encarnar os papéis de pacientes que buscam tratamento em uma unidade psiquiátrica. Suas mecânicas tendem a reforçar de maneira clara e facilmente compreensível os temas abraçados para sua composição (Identidade, Fortaleza e Empatia);

Será necessário trabalhar para reforçar sua identidade, recorrer a fortalezas e contar com a empatia de outras e outros pacientes para, não necessariamente vencer, mas passar pelos momentos difíceis. Nem todas perguntas tem respostas, mas questionar e interagir é importante;

Cabendo a uma pessoa do grupo as tarefas mais árduas (preparar, criar bases de personagens, mediar, intervir, interpretar personagens não-jogáveis e controlar a evolução de outrem) há espaço de sobra para jogadores e jogadoras direcionar o foco no que realmente importa: personagens;

Com um objetivo velado (a jogadoras e jogadores) e outro em efeito bomba-relógio, o fim do jogo é – de certa – forma algo desejado e a ser evitado simultaneamente – um dos exemplos da quebra de expectativa da obra – é esperado que as/os pacientes busquem sua melhora. Negligenciar é sempre uma opção e perder-se na falha pode ser desesperador, mas você não está sozinh@ na jornada;

Considerações: ​​Não é uma crítica (nem algo que inviabilize o jogo – pelo contrário não lhe falta muito, mas o que existe já funciona e muito bem), mas gostaria de que sua próxima iteração (versão 2.0) trouxesse mais ferramentas e diretivas para a construção de personagens – como, por exemplo, mais descrições específicas sobre os diagnósticos de pacientes ou sugestões de material de consulta para que suas reflexões em regras sejam melhores – ou mais funcionais -, também a fim de se evitar estereótipos discriminatórios nas mesas de jogo (é, têm um risco disso acontecer e me preocupo com isso);
NOTA: 3


 

Avaliação por Diego Barreto de Azevedo

Antes de qualquer análise é preciso dizer que um jogo narrativo sobre superação de crises em uma internação psiquiátrica é realmente ousado. Considerando que este jogo foi baseado nas vivências já escritas pela própria autora, é mais que isso, é corajoso e merece destaque apenas por isso.

Bem, vamos a análise. Se há entre RPGs alguma discussão sobre as distâncias entre experiência, proposta temática e mecânicas, certamente esse RPG não entra nesta discussão se não for como exemplo de completa (ou quase) integração. Tudo o que l jogo se propõe está materializado em regras, mecânicas, fichas, etc.

O jogo aparenta estar completamente funcional e todas suas regras parecem claras. Não há o que questionar quanto ao conjunto de regras, mas o jogo não foi testado, então não posso falar de sua execução.

O jogo utiliza dos temas empatia, Fortaleza e Identidade. Estes temas se traduzem em mecânicas de forma muito interessante e imersiva na ficção. No entanto, vale uma ressalva para o tema fortaleza. Por mais que a interpretação seja livre, me parece que fortaleza se assemelha mais com algo que você tenta proteger, e não simplesmente “o quanto você aguenta”. Claro, a interpretação é livre, mas o jogo foi tão bem escrito e construído que são os pequenos detalhes que restam a serem criticados. :)

NOTA: 3 


Avaliação de Stefan Plínio da Costa

1 – É um jogo muito sensível, que consegue transmitir com maestria as experiências propostas com regras muito fluidas e simples que conduzem bem a partida e ajudando a manter o clima de sessão de terapia.

2 – O jogo é bem completo e flexível para ser facilmente jogado em casa com objetos comuns e dados e simples com uma característica narrativista que o torna mais atrativo e convidativo para os jogadores iniciantes ou inseguros quanto ao tema.

3 – Sim, de maneira sutil ao mesmo tempo direta, os temas são parte da dinâmica do jogo e são essenciais para que o mesmo “flua” corretamente.

Obs: A única “falha” do jogo, se é que posso chama-la assim, é o próprio tema que pode torna-lo pouco atrativo para jogadores novatos ou que não simpatizem com o tema, no mais é um excelente jogo, muito bem elaborado

NOTA: 2


Nota final do jogo 119 Dias Comigo por Janine Appel e Êowyn:  2,66

 

About the author: Rafael Rocha

Rafael Rocha é sociólogo, um dos membros do coletivo/editora Secular, e um dos organizadores das primeiras edições do Laboratório de Jogos e Concurso Faça-Você-Mesmo de Criação de Jogos.

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