Avaliações – 119 Dias Comigo por Janine Appel e Êowyn

119 Dias Comigo é inspirado na minha experiência de internação psiquiátrica. Os temas abordados estão no cerne do jogo. Ele visa proporcionar uma experiência empática e humanizada sobre saúde mental nos jogadores, que interpretarão Pacientes internados com diversos transtornos mentais e um Psiquiatra (além de outros profissionais) que será o grande facilitador do jogo. Basicamente, através da rolagem de dados e das ações dos pacientes, a cada rodada, eles irão acumulando fichas de transtorno ou de tolerância (quanto mais fichas de transtorno, mais doentes; quanto mais fichas de tolerância mais saudáveis). Basicamente, o objetivo dos pacientes é superar suas crises, reencontrar suas identidades e testar suas fortalezas – sozinhos e ao mesmo tempo todos juntos. Isso foi tudo o que eu vivi naqueles meus 119 dias. E você, jogador… o que fará nos seus 119 Dias?

 

Avaliações da Fase 2

Avaliação por Cecília Reis

  1. O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta? Sim
  2. Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste? Sim
  3. O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos? Sim
    1. Se a autora optou por usar uma das metas alternativas de design, ela conseguiu executá-la satisfatoriamente?  Não!

Embora eu ache que existam boas mecânicas e bons elementos em 119 Dias, além da proposta de jogo interessante, achei o documento um tanto confuso e o jogo demasiadamente carregado de regras explicadas numa ordem disforme e que não conversam muito entre si.

Acho que vale dar um passo para trás, remover algumas coisas, e repensar como o jogo deve acontecer.

NOTA: 2


Avaliação por Seculares

  1. O jogo é capaz de transmitir a experiência a que se propõe? As regras atuam no sentido de proporcionar a experiência proposta? Sim (2.0 em 3.0)
  2. Quão completo é o jogo: o jogo enviado funciona sozinho, com todos os elementos para uma sessão de teste? Sim (3.0 em 3.0)
  3. O jogo incorpora de maneira concreta e substancial os temas escolhidos? Sim (2.0 em 3.0)
    1. Se a autora optou por usar uma das metas alternativas de design, ela conseguiu executá-la satisfatoriamente?  Não!

119 Dias Comigo é um jogo pesado, brutal e profundamente autoral. É inegável o viés catártico que sua criação simboliza. Inclusive, como forma de partilhar sua experiência com os jogadores em potencial, gerando como consequência, um exercício de empatia aos mesmos.

Em termos de jogo, este se apresenta como uma simulação de internação numa clínica psiquiátrica.

Para sua criação, os autores evidenciam o repertório de inspiração ludológica, misturando e remixando suas mecânicas de forma equilibrada. Por se tratar de um tema sensível, demarca a importância sobre os limites do contrato social.

Os temas utilizados estão amarrados. Talvez o ponto de crática seja a Empatia, que mesmo sendo o tema mais presente e representado mecanicamente, acaba por emergir inevitavelmente mais da experiência de jogo com o delicado tema, do que com a troca de fichas entre os pacientes.

A duração da partida de forma ajustável deixou dúvidas se a intenção é para construir a narrativa em uma ou mais sessões (como por exemplo no caso de um jogo de 119 dias)

A mecânica do envelope para as fichas de transtorno é simples e efetiva. Esta talvez seja a sacada mais esperta do jogo, pois o jogador não sabe o quão o perto da melhora está, e está incerteza e angústia sangra do personagem para o jogador. Excelente!

NOTA: 2.33

Nota final do jogo 119 Dias Comigo por Janine Appel e Êowyn na Fase 2:  2,16


Avaliações da Fase 1

Avaliação por Camilo Soares

A palavra ​consumo tem permeado, norteado e definido boa parte do que temos feito nessa última década: aprendemos a – e por vezes adoramos – consumir marcas, produtos, ideias e até pessoas. Às vezes, nós não pensamos, não nos afetamos, não incorporamos, não mudamos, apenas consumimos. Essa sensação de anestesia que você está sentindo é – [a]normal, mas – socialmente aceitável;

Se faz importante lembrar que nem toda obra é criada para te entreter, te deixar alegre ou meramente gastar seu tempo enquanto é consumida; Janine e Éowyn nos trazem 119 Dias Comigo – um jogo intimista inspirado pela experiência de internação psiquiátrica de sua idealizadora – uma obra que nos faz pensar e quebra expectativas: ao se consumir a mesma, será possível extrair apenas o que você levar;
Jogadoras e jogadores de 119 Dias Comigo devem encarnar os papéis de pacientes que buscam tratamento em uma unidade psiquiátrica. Suas mecânicas tendem a reforçar de maneira clara e facilmente compreensível os temas abraçados para sua composição (Identidade, Fortaleza e Empatia);

Será necessário trabalhar para reforçar sua identidade, recorrer a fortalezas e contar com a empatia de outras e outros pacientes para, não necessariamente vencer, mas passar pelos momentos difíceis. Nem todas perguntas tem respostas, mas questionar e interagir é importante;

Cabendo a uma pessoa do grupo as tarefas mais árduas (preparar, criar bases de personagens, mediar, intervir, interpretar personagens não-jogáveis e controlar a evolução de outrem) há espaço de sobra para jogadores e jogadoras direcionar o foco no que realmente importa: personagens;

Com um objetivo velado (a jogadoras e jogadores) e outro em efeito bomba-relógio, o fim do jogo é – de certa – forma algo desejado e a ser evitado simultaneamente – um dos exemplos da quebra de expectativa da obra – é esperado que as/os pacientes busquem sua melhora. Negligenciar é sempre uma opção e perder-se na falha pode ser desesperador, mas você não está sozinh@ na jornada;

Considerações: ​​Não é uma crítica (nem algo que inviabilize o jogo – pelo contrário não lhe falta muito, mas o que existe já funciona e muito bem), mas gostaria de que sua próxima iteração (versão 2.0) trouxesse mais ferramentas e diretivas para a construção de personagens – como, por exemplo, mais descrições específicas sobre os diagnósticos de pacientes ou sugestões de material de consulta para que suas reflexões em regras sejam melhores – ou mais funcionais -, também a fim de se evitar estereótipos discriminatórios nas mesas de jogo (é, têm um risco disso acontecer e me preocupo com isso);
NOTA: 3


 

Avaliação por Diego Barreto de Azevedo

Antes de qualquer análise é preciso dizer que um jogo narrativo sobre superação de crises em uma internação psiquiátrica é realmente ousado. Considerando que este jogo foi baseado nas vivências já escritas pela própria autora, é mais que isso, é corajoso e merece destaque apenas por isso.

Bem, vamos a análise. Se há entre RPGs alguma discussão sobre as distâncias entre experiência, proposta temática e mecânicas, certamente esse RPG não entra nesta discussão se não for como exemplo de completa (ou quase) integração. Tudo o que l jogo se propõe está materializado em regras, mecânicas, fichas, etc.

O jogo aparenta estar completamente funcional e todas suas regras parecem claras. Não há o que questionar quanto ao conjunto de regras, mas o jogo não foi testado, então não posso falar de sua execução.

O jogo utiliza dos temas empatia, Fortaleza e Identidade. Estes temas se traduzem em mecânicas de forma muito interessante e imersiva na ficção. No entanto, vale uma ressalva para o tema fortaleza. Por mais que a interpretação seja livre, me parece que fortaleza se assemelha mais com algo que você tenta proteger, e não simplesmente “o quanto você aguenta”. Claro, a interpretação é livre, mas o jogo foi tão bem escrito e construído que são os pequenos detalhes que restam a serem criticados. :)

NOTA: 3 


Avaliação de Stefan Plínio da Costa

1 – É um jogo muito sensível, que consegue transmitir com maestria as experiências propostas com regras muito fluidas e simples que conduzem bem a partida e ajudando a manter o clima de sessão de terapia.

2 – O jogo é bem completo e flexível para ser facilmente jogado em casa com objetos comuns e dados e simples com uma característica narrativista que o torna mais atrativo e convidativo para os jogadores iniciantes ou inseguros quanto ao tema.

3 – Sim, de maneira sutil ao mesmo tempo direta, os temas são parte da dinâmica do jogo e são essenciais para que o mesmo “flua” corretamente.

Obs: A única “falha” do jogo, se é que posso chama-la assim, é o próprio tema que pode torna-lo pouco atrativo para jogadores novatos ou que não simpatizem com o tema, no mais é um excelente jogo, muito bem elaborado

NOTA: 2


Nota final do jogo 119 Dias Comigo por Janine Appel e Êowyn:  2,66

 

About the author: Rafael Rocha

Rafael Rocha é sociólogo, um dos membros do coletivo/editora Secular, e um dos organizadores das primeiras edições do Laboratório de Jogos e Concurso Faça-Você-Mesmo de Criação de Jogos.

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